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  • 'Despacito', com participação de Justin Bieber, é novo fenômeno

    Luis-Fonsi-Daddy-Yankee-Despacito.jpgRIO - Um violão com sotaque latino sem brilho, timbres e macetes genéricos de pop radiofônico, um suingue reggaeton baixos teores, versos de sensualidade pouco inspirada em espanhol na voz de um megastar para dar o sabor internacional — a receita não parece especialmente atraente, mas de alguma maneira, funcionou. Lançada em janeiro, a canção "Despacito", do porto-riquenho Luis Fonsi (com participação de Daddy Yankee) não para de bater recordes.

    Em janeiro, tornou-se o vídeo em língua espanhola com mais visualizações (5,4 milhões) da história da Vevo. Agora, em sua versão remix que conta com o reforço de Justin Bieber (o tal megastar), a música chegou à primeira posição do ranking das mais tocadas no Spotify — onde se mantém desde o dia 22 de abril. É a primeira latina com letra em espanhol a atingir o feito — a versão original também não foi mal, alcalçando o 12º lugar do ranking global. No Youtube, o remix foi a maior estreia do ano.

    'Despacito'

    O serviço de streaming registra outros dados impressionantes a respeito da canção. "Despacito" está no Top 20 de pelo menos 14 países que não falam na língua espanhola, como Estados Unidos, Suécia, Alemanha, Dinamarca e Noruega. Mais de 10 milhões de usuários salvaram a música em suas playlists. A popularidade de Fonsi também cresceu vertiginosamente, de 2 milhões de ouvintes mensais para 22 milhões.

    O segredo do sucesso de "Despacito" talvez esteja em sua maior fraqueza — sua superficialidade. A sensualidade dos versos não vai além (em inspiração ou ousadia) do "quero despir você com beijos lentamente". O ritmo do reggaeton aparece esvaziado de sua crueza agressiva (apelo central dessa música de periferia, no que se assemelha ao funk carioca). O violão latino soa como reprodução pálida de outros tantos usados antes por Shakira ou Ricky Martin.

    Cinco reggaetons melhores do que 'Despacito'

    Ou seja, a canção encosta em vários terrenos, mas não mergulha em nenhum. Assim, atinge a um gosto médio global — turbinado com um tempero de "exotismo". A definição do prórpio Fonsi para "Despacito" revela isso de certa forma: "O que eu queria era fazer uma canção divertida, com um sentimento latino e uma melodia que me sentisse confortável em cantar e que faria as pessoas simplemsnete dançarem".

    Soma-se a isso o apelo de Justin Bieber (frequentador rotineiro das paradas de rádios e serviços de streaming) e do próprio reggaeton como gênero. Popularizado nos anos 1980, o ritmo — numa definição grosseira, uma fusão de reggae e hip hop — surgiu no Panamá, se firmou em Porto Rico e, a partir dos anos 1990 se espalhou pelas paradas de sucesso mundiais, com letras muitas vezes de forte teor sexual e abordando temas como drogas e crime — o uso do "espanglês" também é comum . Daddy Yankee, que canta com Fonsi e Bieber em "Despacito", é um dos maiores nomes do gênero.

    No Brasil, o reggaeton está nas rádios no trabalho de artistas como Anitta (o colombiano Maluma, que faz dueto com a cantora em "Sim ou não", é outro de seus representantes mais populares), Nego do Borel e Wesley Safadão (que juntos com Anitta fazem um reggaeton-forró em "Você partiu meu coração") e mesmo Luan Santana ("Acordando o prédio").

    'Você partiu meu coração', com Nego do Borel, Wesley Safadão e Anitta



  • Gorillaz lança 'Humanz', primeiro álbum após hiato de sete anos

    LINKS_GORILLAZ

    RIO — O Gorillaz finalmente lançou, nesta sexta-feira, o álbum "Humanz", o primeiro trabalho de estúdio do grupo virtual após um hiato de sete anos. Com 26 faixas, o disco conta com uma lista de convidados especiais recheada: Grace Jones, e Mavis Staples, o grupo De La Soul, além de Pusha T, Vince Staples, Jehnny Beth (do Savages), D.R.A.M., Popcaan, Benjamin Clementine, entre outros.

    Antes do lançamento do sucessor de "Plastic beach" (2010), o grupo, formado pelo músico Damon Albarn (do Blur) e pelo designer Jamie Hewlett, já fazia um intenso marketing em torno do álbum. Tanto que, após participação de Albarn em programa da BBC Radio 1, a banda disponibilizou nos serviços de streaming, incluindo o YouTube, quatro faixas do disco: “Ascension” (com Vince Staples), “We got the power” com Jehnny Beth), “Saturnz Barz” (com Popcaan), que ganhou clipe, e “Andromeda” (com D.R.A.M.).

    Ouça o novo álbum, "Humanz"

    Gorillaz - Humanz



  • Nova Zelândia proíbe '13 reasons why' para menores de 18 anos

    LINKS_13 REASONS

    RIO — O escritório de classificação de cinema e literatura da Nova Zelândia, órgão que regula a faixa etária recomendada para filmes e séries no país, decidiu censurar '13 reasons why' para menores de 18 anos. A medida foi tomada pois o país tem uma das maiores taxas de suicídio juvenil nas nações da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

    "Especialistas em saúde mental estão extremamente preocupados com os efeitos que '13 reasons why' poderia causar nos adolescentes do país, que estão fazendo maratonas da série a todo momento", disse o órgão que regula a classificação indicativa de filmes e séries no país em um comunicado, nesta quinta-feira.

    Segundo dados da OCDE, por semana, pelo menos dois adolescente cometem suicídio na Nova Zelândia. Por conta disso, menores de 18 anos só poderão assistir à série da Netflix acompanhada por um adulto responsável.

    Ainda de acordo com o comunicado publicado pelo escritório de classificação de cinema e literatura, as autoridades do país consultaram uma série de grupos especializados em saúde mental e conversaram com adolescentes que assistiram a todos os 13 episódios da primeira temporada.

    A partir dessa pesquisa, as autoridades reconheceram que o programa tem um "mérito significante" por abordar um assuntos "extremamente relavantes" para adolescentes, principalmente por abordar temas como suicídio, violência sexual e bullying. Ainda assim, eles atentaram para o fato de que a cena em que a protagonista Hannah comete suicídio é muito forte.



  • Peça inspirada em Lima Barreto reflete sobre racismo e eugenia

    RIO — A literatura e a vida do escritor Lima Barreto (1881-1922) reuniram há alguns meses dois importantes criadores teatrais, de diferentes gerações e regiões do país: a autora e encenadora Fernanda Júlia, fundadora do grupo baiano NATA, e o ator e diretor Hilton Cobra, da Cia. dos Comuns, do Rio.

    Representantes de companhias teatrais que buscam colocar o negro brasileiro no centro da cena e de suas reflexões intelectuais e estéticas, os dois se juntaram pela primeira vez para criar, ao lado do dramaturgo Luiz Marfuz, a peça "Traga-me a cabeça de Lima Barreto", que está em cartaz no Sesc Copacabana, de quinta a domingo, até 7 de maio.

    Inspirada livremente nas obras "Diário íntimo" e "Cemitério dos vivos", de Lima, a peça se estrutura como um monólogo, interpretado por Cobra e dirigido por Fernanda. Misturando a literatura do escritor a fatos reais e fictícios, a dramaturgia tem como ponto de partida a morte do escritor, quando médicos eugenistas exigem a exumação do seu cadáver para uma autópsia a fim de esclarecer “como um cérebro 'inferior' poderia ter produzido tantas obras literárias, se o privilégio da arte e da boa escrita é das 'raças superiores'?”, contam Cobra e Júlia.

    Absurdo aos olhos de hoje, o episódio que dispara a dramaturgia é uma provocação que questiona o racismo, o preconceito, a desigualdade e a intolerância ao negro desde os tempos de Lima até os dias de hoje, e busca aproximar o espectador de diferentes pontos da vida do escritor: a singularidade de sua obra literária,e o não reconhecimento de seu valor, assim como os limites entre genialidade e loucura, entre outros aspectos.

    Leia abaixo a entrevista concedida por Fernanda Júlia e por Hilton Cobra:

    Partindo do título da obra ("Traga-me a cabeça de Lima Barreto"), mas buscando um sentido diferente do que o título explicita, gostaria de saber por que vocês acham importante trazer a cabeça — a subjetividade, a psique, a criatividade e as memórias — de Lima Barreto para quem vive no Brasil de hoje? O que a cabeça de Lima nos revela sobre o país de ontem e o atual?

    Fernanda Julia: Trazer a cabeça de Lima para a atualidade, além de uma ação reparatória, é uma ação de fortalecimento de referencial identitário. Lima é um grandioso autor, sua obra é atualíssima e seu posicionamento político reflete e muito o papel da arte e do artista tanto no tempo dele como nos dias atuais.

    Hilton Cobra: Primeiro, pelo prazer apresentar Lima Barreto, um autor com uma qualidade e intensidade incomparáveis. Fazer uma peça sobre Lima é, sempre, qualificar um discurso, um pensamento, uma opinião. Por isso é importante trazer a cabeça de Lima para perto. A partir da obra de Lima, sobretudo pelas crônicas que ele escreveu, podemos ver que existe hoje um brasileiro mais atuante politicamente. Estamos cada vez mais próximos do que Lima escrevia e dos pontos que eram abordados por ele naquela época, e que já chamavam a atenção dos brasileiros.

    O que o motivou a criar essa peça? De que modo ela se relaciona com as pesquisas e investigações artísticas que você vem desenvolvendo com seu grupo?

    F.J.: Este espetáculo nasce, em primeira instância, de um desejo do Cobra, mas por fim ele é resultado de inúmeras conversas com ele sobre como divulgar e fortalecer as contribuições de artistas como Lima Barreto, Cruz e Souza, Maria Carolina de Jesus, Abdias do Nascimento, Mercedes Batista e muitos outros que estão vivos e têm sua obra ainda inviabilizada. O Nata, que é o grupo ao qual eu pertenço, é uma companhia de teatro militante e engajada politicamente. Nesse sentido, criar obras que ampliem o nosso imaginário negro é um dos objetivos que nos norteiam. Precisamos falar do nosso ponto de vista. Se ver e ser visto. Ampliar e afirmar nosso campo simbólico.

    H.C.: Em 2008, protagonizei "Policarpo Quaresma", mas na época não me aprofundei como eu gostaria na obra de Lima e também na loucura do escritor. Então, essa lacuna que eu sentia, em relação à loucura e à obra dele, foram preenchidas agora nessa peça, em que eu pude ir mais fundo nesses dois aspectos, e pude compreendê-lo melhor. Eu, Marfuz e Júlia mergulhamos juntos numa investigação artística, com o desejo de comprovar, cada vez mais, que existe uma estética do fazer teatral negro e que nós devemos buscar sempre isso.

    Racismo, preconceito e eugenia são temas com os quais a peça se relaciona, mas de que modo, a partir de que abordagens e mecanismos? O que caracteriza ou singulariza a abordagem dessa peça em relação a esses temas? O que está sendo colocado em discussão com este trabalho, primordialmente?

    F.J.: Primeiro abordamos a eugenia de forma a defini-la, pois o desconhecimento em relação ao termo ainda é muito grande. A maioria da população desconhece a história e os efeitos desta pseudo e nefasta ciência. Lima entra em embate com os eugenistas e aproveita a sua autópsia para denunciar o processo discriminatório que apagou a sua obra.

    H.C.: O que diferencia dramaturgicamente esse trabalho é ter buscado justamente esse tema, o da eugenia. Marfuz pensou numa situação dramática extraordinária, mas passível de ocorrer: um grupo de médicos eugenistas brasileiros que decidem exumar o corpo de Lima motivados pela seguinte indagação: por que um cérebro considerado inferior poderia ter produzido inúmeras obras literárias de valor, se o privilégio da arte e da boa escrita é das raças consideradas superiores? Com isso se forma o eixo dramático da peça: a acusação dos eugenistas para desqualificar a obra de Lima, de um lado, e a luta do escritor para denunciar o racismo e a eugenia, e para afirmar sua obra e ser reconhecido — se não em vida, ao menos na morte. Fundamentalmente, o que está sendo colocado em cena é a questão racial, o quanto no Brasil de hoje ainda é presente o preconceito racial.

    O mote da peça — o fato de eugenistas exigirem a exumação do cadáver de Lima para uma autópsia a fim de esclarecer como um "cérebro inferior" poderia ter produzido arte — nos soa, hoje, como um ato absurdo, extremo. Que atos cometidos contra negros nos dias de hoje seriam comparáveis a esse, mas que não são percebidos como absurdos, ou não são combatidos como deveriam?

    F.J.: Penso, como exemplo, no padrão eugênico da TV, que ainda hoje exclui o artista negro, ou o coloca em papéis de subalternidade. O pensamento de que o Negro é incapaz de trabalhar na concepção de ideias, mas apenas de execução das ideias.

    H.C.: De fato, hoje soa como absurdo essa cobrança dos eugenistas em fazer uma autopsia no Lima. Mas ainda hoje estamos mergulhados numa sociedade racista. Acho que hoje, Lima ainda escreveria sobre a alienação do povo brasileiro, a reinvindicação dos direitos dos trabalhadores, e sobre como a arte brasileira não é vista como algo de essencial pra formação da sociedade.

    O que mudou, ou não mudou, entre os tempos de Lima e os atuais em relação ao modo como os artistas negros e seus feitos artísticas são percebidos, valorados e assimilados pela sociedade?

    F.J.: O racismo continua forte. E é um racismo institucionalizado, velado, sutil, que enlouquece aquele que o sofre. Os artistas negros brasileiros têm conseguido algumas vitórias ao longo dos séculos, mas são vitórias árduas, suadas. Não há de forma alguma um pensamento da República de reparar afirmativamente, de forma espontânea, os males causados pela escravidão.

    H.C.: Uma das grandes mágoas e ressentimentos de Lima Barreto foi não ter sido reconhecido em vida, por sua obra e por seus pensamentos. Hoje, nós temos uma quantidade de artistas negros ativos muito maior do que naquela época, o que nos possibilita criar uma rede, e que nos ajuda a ter esse espaço. Hoje, o povo negro também é mais militante, devido às circunstâncias que o Brasil nos apresenta, essa exclusão secular. Logo, atualmente temos uma possibilidade maior de estar e abir esses espaços.

    Considerando que o teatro negro contemporâneo é uma linguagem, uma estética, e um tipo específico do fazer teatral, o que esta peça propõe dentro deste campo? De que modo ela dialoga e se relaciona com os elementos que estruturam o teatro negro contemporâneo?

    F.J.: O "Traga-me..." é um espetáculo que dialoga com os elementos do fazer teatral negro à medida em que consiste num espetáculo cênico que une teatro, música, dança... Todas essas linguagens em formas afro grafadas, ou seja do ponto de vista da nossa herança africana e afro brasileira. O teatro negro define-se por ser um teatro realizado por artistas negros, com temática que interessa ao povo negro, e realizado por meio das contribuições culturais, éticas, políticas da nossa herança africana e afro brasileira.

    H.C.: Me proponho a um desafio, desde 2001, quando criei a Cia dos Comuns, que é criação e o desenvolvimento de narrativas artísticas que tenham o negro como protagonista – da cena e dos temas retratados. Trabalhamos com o dramático e o extraordinário como elementos de linguagem – e isso nos possibilita um fazer teatral absolutamente potente, capaz de sensibilizar e fazer refletir sobre racismo e intolerância.



  • ‘Vermelho russo’ mostra atrizes na Rússia interpretando a si mesmas

    pça vermelha_Bruno Alfano.jpgRIO — Em 2009, Martha Nowill foi à Rússia com a amiga Maria Manoella estudar a famosa técnica Stanislavski de interpretação. A experiência seria revivida pelo menos duas vezes. A primeira, naquela mesma época, quando registrou em diários os acontecimentos da viagem, publicados na revista “piauí”. E, mais tarde, em 2014, ao voltar ao país para rodar a adaptação cinematográfica dos escritos — o resultado é “Vermelho russo”, em cartaz desde quinta-feira no Rio (leia a crítica e veja os horários).

    No longa de Charly Braun, premiado com o troféu Redentor de melhor roteiro (escrito por ele e Martha) no Festival do Rio do ano passado, a atriz interpreta a si mesma. Veio a calhar, portanto, o que ela aprendeu com o método de atuação criado pelo diretor russo Constantin Stanislavski (1863-1938), que, entre tantas diretrizes, orienta o ator a ser outra pessoa no palco e, ao mesmo tempo, continuar sendo ele.

    — Na hora de atuar, fiquei perdida. Será que eu deveria interpretar a mim mesma? Ou uma versão minha de uma década atrás? Ou, ainda, uma caricatura de mim? — recorda a atriz. — Então decidi criar uma versão clownesca: alguém com traços meus, mas com um lado palhaço.

    Trailer de 'Vermelho russo'

    Durante a primeira metade da trama, tudo parece ir muito bem entre Martha e Manoella (sim, as “personagens” têm o mesmo nome das intérpretes): elas se divertem, conhecem outros artistas de teatro e riem das dificuldades de se adaptar à cultura e língua locais. A relação degringola quando um ator (Michel Melamed) beija uma delas, despertando o que parece ser uma crise de ciúme entre as jovens. A partir daí, o convívio fica insuportável, com brigas constantes. Para piorar, o clima desagradável afeta o seu desempenho nas aulas de interpretação.

    — Desde que comecei a trabalhar, meu sonho era ser protagonista de um longa. É um lugar difícil de se chegar, ainda mais sendo mulher. Todo mundo quer atuar no filme de fulano ou sicrano. Nunca imaginei que eu mesma me daria o papel — pondera Martha.

    PROCESSO DE DESAPEGO

    A briga entre as duas amigas realmente aconteceu. O beijo? Talvez. Martha evita revelar o que é (ou não) real. O objetivo, como tantas produções contemporâneas, é “confundir a linha entre ficção e documentário”, ela explica. O mais importante era capturar a essência do que estava registrado nos diários. O Charly pegou o diário e começou a falar: “Isso aqui a gente pode jogar fora, isso aqui é uma merda”. Eu retrucava: “Como assim? Isso é minha vida, tudo é importante”. Depois, entendi que, em última instância, estávamos fazendo uma obra. Foi um processo de desapego

    Só que isso também foi uma fonte de conflito nos bastidores. Afinal, a experiência de Martha pode ter sido marcante para a atriz, mas, no formato de filme, precisava funcionar também para o público. Assim, em prol da dramaturgia, alguns eventos precisaram ser retirados, e outros, inventados.

    — Foi esquizofrênico. O Charly pegou o diário e começou a falar: “Isso aqui a gente pode jogar fora, isso aqui é uma merda”. Eu retrucava: “Como assim? Isso é minha vida, tudo é importante”. Depois, entendi que, em última instância, estávamos fazendo uma obra. Foi um processo de desapego — diz Martha.

    Charly Braun diz que a confiança entre a equipe foi fundamental para um resultado positivo.

    — A nossa relação era bastante horizontal, por sermos poucos. Mas o ator sempre fica meio vendido dentro de filme, porque é do diretor a decisão final. Ele precisa confiar no realizador — reforça o cineasta, premiado como melhor diretor no Festival do Rio em 2010, por “Além da estrada”.

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    Mas havia ainda um outro problema. Quando a equipe chegou à Rússia para rodar o longa, Martha percebeu que o país havia mudado desde a sua última visita. Algumas passagens do diário já não fariam mais sentido no cinema. Braun e ela modificaram o roteiro enquanto filmavam.

    — Meu medo é que o filme não ficasse à altura da minha experiência. Nunca trabalhei tanto — ri a atriz. — A Rússia é um lugar louco. Já tinha ido para lá mais nova, em 1998. Não deixavam a gente fotografar na rua. Se andasse sozinha, achavam que você era uma prostituta. Poucas pessoas falam inglês. Hoje em dia, tudo isso mudou.

    Mesmo assim, o choque cultural existe. Braun relata um exemplo:

    — Fiz uma reunião com o reitor de uma escola onde queria filmar. Depois, descobri que ele achou o título “Vermelho russo” ofensivo. Não entendi por quê. Será que alguma coisa tinha sido perdida na tradução? Ou será que tinha relação com o comunismo? Bem, respondi que “vermelho” tinha a ver com uma paixão brutal presente na trama, mas só depois a Martha me explicou a origem do nome.

    Vermelho Russo é a cor de um batom, e apenas isso.